Minha família sempre leu muito ao meu redor, na infância. Eu mesmo li quadrinhos sem saber ler antes de ler. Depois da alfabetização li tudo de novo, era quadrinho para três irmãos.

Cresci colecionando revistas de carro, de videogame, Mad e como muitos jovens normais, não curtia muito os livros indicados pela escola.

Até descobrir que podia ler sobre o que me interessava e que havia um mundo inteiro novo de livros que me agradavam mais que todo o resto que eu fazia, como estudar.

Os romances históricos passaram a ter lugar cativo na minha cabeceira. Musashi, O Egípcio, Portões de Fogo, As Brumas de Avalon, Senhor dos Aneis, Bucowski, Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft, Stephen King. 

Era muito bom ter amigos que gostavam de ler também. Pois esses caras terminaram de me salvar de ser engolido pelo mundo. Toda vez que sou obrigado a discutir ou responder alguém que não conheço ou acabo de conhecer nos dias de hoje desisto de fazê-lo porque muitas vezes noto que a pessoa foi engolida pelo mundo.

Há um ponto sem retorno em que, sem um olhar crítico o bastante ou a consciência de contexto, as pessoas ficam em um limbo de massificação, manipulação e polarização.

Tenho visto pessoas que eu admirava e tinha uma relação por diversos motivos se perderem, gastarem uma energia monstruosa em assuntos que não dominam, com opiniões que defendem no nível de crença, como sua religião, e têm absoluta certeza de que estão acompanhados da verdade.

Nessa pandemia voltei à frequência de leitura que considero ideal, ler mais do que ver TV. Um novo curso acabou me forçando a passar muitas das noites lendo ou escrevendo. Fui forçado a ler um assunto super técnico como Google ADs mas a notícia boa é que a nossa mente é como um buraco negro: tem fome e atrai mais e mais texto, mais e mais conhecimento.

Estou lendo três ou quatro livros simultâneos, em 3 ou 4 plataformas diferentes. Isso é coisa de quem vê muita TV e quem também joga muito videogame, coisas que, por si mesmas, tomam enorme tempo.

Eu já fazia isolamento social, sempre fiz. Esta sempre foi boa parte da minha vida. Mas voltar à essa frequência de leitura me impressiona. Vou fazer uma listinha porquê.

#1 Memória

Quando a gente lê muito a memória fica mais e mais afiada. Há alguns meses eu estava à beira de uma estafa e tinha certeza que algo havia acontecido com a minha memória, talvez um problema no cérebro.

Cansaço. Agora, saudável, devorando as letras todos os dias em notícias, quadrinhos e diversos temas como o Capitalismo, Psicologia Moral, Socialismo, História, Gestão, descrição técnica de processos, Investimento, Finanças, Espiritismo, Notícias, letras de música, meu cérebro parece estar tomando esteróides.

#2 Consciência

Não é uma questão de estar certo ou errado, mas ler sobre Psicologia Moral está sendo libertador. É fato pesquisado e comprovado bem recentemente que as pessoas elegem ao longo da vida verdades que tomam pra si em uma forma bem semelhante às questões de Religião.

Acreditam piamente e quando defrontados com escolhas, escolhem primeiro aquele lado que é preferido e seu racional o justifica depois. E será feito o que precisar ser feito para corroborar essa escolha.

Ter a consciência disso permite nos libertar de escolhas ruins; que ignoramos fatores da realidade que mostram que é uma escolha errada, ou se tornou inadequada com o tempo.

Por isso vemos nas pessoas escolhas que pra nós são irracionais. E nossa vaidade quase sempre nos dá a certeza de que o outro é ignorante, burro, idiota, certo?

Outro ponto é a empatia. Conseguir sentir a dor alheia sem ter que vivê-la. No Brasil temos uma explosão de moradores de rua nesta pandemia, neste inverno. Algumas pessoas nem notaram. Ter a consciência do enorme privilégio que vivemos é libertador. 

#3 Poder

O fator dois nos dá uma ferramenta extremamente útil pra viver melhor: entender o cenário e agir de uma maneira que nos favorece e à outros ao nosso redor.

Seja lá qual jogo estiver sendo jogado pelos agentes influenciadores da realidade, você já sabe qual é e, se algo irá prejudicá-lo, você consegue prever.

Temos muitas pessoas que usam isso patinando completamente na questão ética. Entender isso também é outra ferramenta para você se proteger de enrascadas pela vida afora. Se afastar dessas pessoas é algo bem inteligente de se fazer.

#4 Aprender com a experiência alheia

Este item é muito especial, pois é algo bem óbvio que para ser alguém experiente é preciso ter aprendido com os erros, muitos erros. Um dos maiores espólios da leitura em grande quantidade é você passar a aprender com a experiência dos outros, mesmo que seja fictícia.

Os livros que não são ficção, especialmente, trazem ideias raciocinadas, um grande esforço de quem as produziu. Mesmo que seja uma ideia que você recuse, ela vai passar pela sua cabeça, ser dominada e dissecada.

Então, por exemplo, se você odeia o comunismo, é necessário que você conheça o comunismo, domine a teoria, veja o que foi feito que ele no mundo. Isso vai te libertar por exemplo, de ter medo de uma teoria.

E seu filho precisa ler sobre pra entender isso também. Se não conhecer, como poderá se opor? Me deixa triste ver como as pessoas colocam suas crenças em frente à Lógica e pronto. Como seu filho vai entender o que o Comunismo se você quer tirá-lo do conteúdo da escola pois é uma “ideologia”?

Um conhecido amigo professor ouviu de um pai que ele aprendera tudo errado na faculdade. Tudo: horas de leitura que cada aluno faz à sua maneira, aulas de discussão que cada aluno leva como quiser, fontes diferentes, trabalhos de conclusão de curso diferentes, pós-graduações diferentes, atuações diferentes, em lados diversos do espectro político.

Não há qualquer aluno que se forme de forma idêntica. Não há qualquer pessoa, qualquer professor que consiga se manter intacto e imutável a vida toda.

#5 Mutação permanente

O velho Rauzito já disse que preferia ser a metamorfose ambulante, provavelmente citando Kafka. Pois é isso que ler em grande quantidade vai garantir à você: nunca cair na rotina.

Você vai mudar, suas companhias vão sempre mudar, os locais que você vai, os trabalhos que você fará (mesmo dentro de um emprego), seus empreendimentos, as pessoas ao seu redor.

Eu garanto pra você. Você não terá medo de se colocar frente à qualquer autor. Marx. Uau, como esse cara é temido. Parece às vezes que ele tem algum tipo de lepra ou vírus. Se você ler muito será capaz de não precisar de alguém interpretando o autor pra você.

Usei um exemplo que talvez não seja o ideal. Fiz Gestão de Negócios há 15 anos atrás, mas o que realmente mudou minha cabeça foi conhecer Peter Drucker, autor de empreendedorismo e inovação que já falava o que falou nos anos 80 em um livro excepcional.

Sim, se deparar com um autor de uma esfera que te interessa muito e estar aberto à mudanças, como eterno aprendiz, até para fazer um extenso trabalho provando que aquele autor está errado, é libertador.

Sendo assim, você, meu amigo, como todos nós, é uma mutação permanente. Não se fixe à ideias muito tempo. Vou dar novo exemplo:

Quando alguém fala “esquerdista” perto de mim, vejo que ele já foi tomado, engolido, pois todos nós, em centenas de milhares de esferas que vamos lidar na vida, somos uma massa de alinhamentos que vão e voltam.

É impossível nos limitar permanentemente à esquerda ou direita, pois somos liberais ou conservadores, dependendo do assunto. Libertários, mais ou menos individualistas, sociocêntricos, ao mesmo tempo e em situações diferentes.

Deixar de ler uma boa quantidade todos os dias é não gostar de você mesmo. É como não respirar bem. Como ter uma síndrome que tolhe você em algum sentido.

Pense nisso.