Ouvi há poucos dias da minha mãe “até hoje não sei o que você faz”. Ouço isso desde o momento, em início de carreira, que trabalhei com algo que ela não conhece direito. “Ah, o João trabalha com esses negócios de internet”.

Quase 20 anos depois a dúvida permanece porque eu fui um dos primeiros da minha geração que realmente abracei o trabalho e olhei com desconfiança para o emprego.

Tive agência por 6 anos de forma caótica e inexperiente no quesito Gestão, como 99% dos primeiros negócios de todos os setores. E foi uma demissão do primeiro emprego que me levou a ter uma agência. O finado diretor-dono até tentou se redimir do “piti” que deu ao me demitir porque eu atrasei no dia seguinte à minha colação de grau e me des-demitir. Mas a decisão estava tomada.

Tive outros empregos e posso dizer que foram escolas maravilhosas, alguns divisores de água para meu pensamento como profissional. Em momentos de terceirização e empreender por necessidade, quero dividir com o máximo possível de pessoas as bases para trabalhar de forma autônoma e ter mais chances de se manter assim.

Vou dividir por assuntos, para facilitar.

#1 Autoconhecimento

Passar por dois processos de Coaching foi crucial para que eu entendesse como funciono ao trabalhar. É como fazer terapia e já adianto: não se conhecer, não saber o que faz você ser feliz profissionalmente é mortal.

Tomei posse de fatores que eu suspeitava sozinho ao ser analisado por uma psicóloga competente acostumada ao metiê de RH de grandes empresas. Ela chancelou:

  • A permanência em um emprego ou atividade profissional em que eu tenha direcionamento inquestionável que eu não concorde e/ou não possa mudar é sofrimento na certa
  • É fundamental que eu seja alimentado por novos assuntos, conhecimentos, novidades em novos projetos que eu possa ajudar a construir
  • Se eu não posso fazer conexão com um propósito edificador do projeto eu não me interesso

Sabendo disso, foi natural me situar no universo do empreendedorismo, Gestão, Proposta de Valor, Comunicação (vários dos aspectos do Marketing), Design, Tecnologia.

Natural também visualizar, encarar e remediar os diversos pontos fracos que nós todos temos e nos atrapalha muito. No meu caso, a fala em público, a imagem pessoal, a vida pessoal conturbada, esferas que hoje posso dizer que tomei posse e tomo conta como um pai, rígido mas carinhoso.

#2 Planejamento

Quando decidi voltar a empreender no formato atual já estava empreendendo há 2 anos junto com um emprego CLT. Tudo aconteceu porque resolvi descobrir o que vários sabichões estavam falando sobre Marketing Digital. Foi como fazer uma nova pós-graduação.

Tudo o que você precisa saber de MKT Digital está na internet. Mas informação não é conhecimento. Conhecimento foi o que formei em anos de leitura filtrando e experimentando tudo que vi de 2012 até hoje e muda, sempre.

Pois bem, quando decidi sair, em 2014, o país já estava travado politicamente, pois antes mesmo da eleição, vários empresários pisaram em todos os freios possíveis. E, achando que ia ter trabalho vindo do meu empregador, descobri que não, não haveria nada. Foi assim que fui demitido, como combinado: só contaria comigo.

Por isso, preveja a sua saída. Planeje. Poupe. Faça um pé de meia. Planeje de novo. Tenha algo em mente. Pessoalmente eu tinha um objetivo imenso: morar perto do mar. Pelos 2 anos seguintes eu e minha esposa perseguiríamos esse objetivo que conquistamos.

Neste mesmo ano houve um projeto no novíssimo setor 2,5 que pudemos implementar. Conseguimos uma verba da esfera governamental e me envolvi num dos primeiros projetos aderentes ao propósito de impactar de forma positiva na vida das pessoas, um projeto de Ensino à Distância, o Sy Essá.

E vieram outros, com muita dificuldade, mas me lembro com carinho deste período de aprendizado. O mais importante: eu era meu chefe. Eu seguia, enfim, as minhas ideias. E mergulhei na Gestão. No Marketing. Criei um negócio inteiro sozinho com apenas R$ 500.

Mas como explicar pra mãe que ajudo meia dúzia de clientes com Comunicação e Tecnologia, tiro projetos do papel, participo de editais, faço sites e coordeno outra meia dúzia de profissionais?

#3 Golden Circle

Sendo direto:

Assista.

Hoje, ao conversar com empreendedores eu pergunto o que ele faz. 90% das vezes ele descreve sua atividade-fim com maestria. Conduzir estas pessoas até o ponto em que enxerguem os seus propósitos e os seus comos é um tesouro que descobri e simplesmente amo fazer. De verdade.

Descubra o seu propósito como profissional. Este será o seu tesouro. Potencialize. Teste. Chancele que ele é bom de alguma maneira.

Todos os meus clientes pensam que eu os ajudo na sua atividade-fim, mas na verdade eu sou servo dos seus propósitos e comos. É essa a real essência de um Marketing bem aplicado. Eu não vou convencer os clientes dos clientes de algo. Eu apenas vou contar como os clientes são (e lutar internamente pra que isso seja verdade, conscientizando-os).

O que você faz que encanta seu cliente? O que lhe dá brilho nos olhos? Já pensou nisso?

#4 Locomotivas de Renda

Sem sombra de dúvidas, em 99% dos negócios que já participei, o dinheiro, o excesso ou a falta, é a principal causa de rompimentos, fechamentos, problemas. Empreender, ser autônomo tem nisso o maior ponto fraco.

Tive contato com uma empresa que formata franquias e eles testemunharam: a maioria esmagadora das empresas que iniciam o franqueamento realizam o famoso voo de galinha. Ao ver vultuosa quantia vinda dos franqueados no caixa seus gestores confundem e agem como se o dinheiro fosse seu.

Uma quantia enorme em pouco tempo se transforma em nada e enorme dor de cabeça. Assim como empreender sem dinheiro, sem condições, sem um resguardo. Por isso temos fenômenos como o fechamento da imensa maioria das empresas, MEIs, nos primeiros anos.

Não se engane: precisamos de dinheiro e isso é perfeitamente normal. Podemos empreender com pouco ou quase nenhum dinheiro? Sim. Lembre do meu empreendimento com apenas R$ 500 reais.

Criei o conceito de locomotivas de renda, são clientes ou rendas recorrentes que sua empresa deve garantir mensalmente para que o negócio prospere. É uma tarefa árdua conquistar essas locomotivas. Precificar. Estabelecer um ticket médio. Especialmente se você vende serviço.

Comece com um. Use de laboratório até conquistar vitórias. E replique uma, duas vezes, até ser preciso dar um novo passo. Lembre: suas contas vencem mensalmente. Nada mais adequado que contratos mensais.

#5 Compartilhamento

Formalizar como MEI não significa que a empresa é você. Pense em quantos papeis você realiza, mesmo como MEI. Mesmo que só você atue no seu negócio. Como ganhar volume contando apenas com você mesmo?

Hoje, 7 anos após o início do formato que adotei, é maravilhoso notar que pratico exatamente o que vislumbrei no início: faço parte de uma rede de profissionais de confiança. Compartilhamos trabalho. Estabeleci “slots” que substituo quando um cliente rompe contrato. Ou quando o projeto se esgota.

Venho sendo educado e educando outros profissionais a pensar do mesmo jeito. No meu caso do Marketing é fácil entender o porquê dessa escolha, pois os empregos disponíveis são disputados quase à faca. E os bons, que pagam bem… Bem, estes sofrem com a cultura do Brasil de indicações nem sempre baseadas nas qualidades profissionais.

O fato é que o Brasil, de fato, adotou a terceirização e trabalhar neste formato desde sempre trouxe algumas facilidades, pois é necessário consciência para praticar. Por isso escrevo o texto!

Participei de um workshop outro dia. O tema era exatamente de comunicar de forma excelente a sua expertise. Incrementar o Marketing pessoal. E eu estava entre professores de pós-graduação. Foram muitas histórias em comum: demissões durante a crise que os tiraram de suas zonas de conforto, na crença de empregos estáveis.

Esta é uma novidade nefasta pra você? Não existe mais o empregão. Aquele que minha mãe ainda espera que eu consiga algum dia. Mãe! Apenas um contrato dos bons que eu tenho paga o salário de CLT que é a média pro cargo, no mercado.

Desde os anos 80, não temos mais empresas que podem se dar o luxo de serem generosas. Nos negócios, na crise, capital humano enxuto é regra. Então, mãe, pra ter meu tempo preenchido 100%, trabalho em nada menos que 5 frentes, a maioria delas completamente diferentes entre si.

E o caminho do conforto é só um: compartilhar com a rede! Se esforçar para mostrar tudo o que você pode fazer bem, contar com os colegas para potencializar seus pontos fracos (lembra da fala em público?), pra ser lembrado pelas pessoas.

Como estão seus relacionamentos profissionais?

#6 Questionar Riqueza

  • Ter dinheiro para comprar o novo Golf GTI.
  • Morar perto do mar.
  • Construir o recanto da família em Nova Lima.
  • Manter uma moto nervosa nas trilhas, no fim de semana.
  • Viajar de 3 em 3 meses.
  • Participar de uma banda de death metal.
  • Não preocupar com o dia de amanhã, o ano que vem, a próxima geração.
  • Fazer minha própria cerveja.
  • Visitar meus pais todo fim de semana.
  • Deixar minha marca numa organização pública.

Colhi de amigos e apresentei alguns conceitos de riqueza acima. Saiba que questionar riqueza é fundamental para você conquistar a vida autônoma. Todas essas riquezas tem em comum o fato de serem ações. Não um valor acumulado.

O dinheiro é fundamental para quase todos. Mas não confunda os objetivos. O dinheiro pra realizar as riquezas pode não ser exatamente a moeda para chegar ao objetivo. O dinheiro não é o fim. Isso é libertador.

#7 Garantias

Ser autônomo significa que você não vai contar com os caminhos que os funcionários de empresas fazem. Você não tem as proteções da CLT. Não tem os benefícios que muitos empregadores fazem de incentivo. Mas temos solução pra isso:

  • Quanto antes, contrate sua Previdência Privada. Uma dica: fuja dos bancos. Pergunte ao seu Corretor de Seguros o que está compensando mais. Ele vai saber.
  • Faça um Seguro adequado à sua atividade: se seu ganha pão são suas mãos, tenha um seguro para usar se ficar incapacitado temporariamente ou indefinidamente. Pergunte novamente ao seu Corretor.
  • Faça quanto antes seu Seguro de Vida também. Mesmo que seja pra beneficiar sua mãe ou sua irmã, apenas um parente. Ou dois. E você pode mudar isso se casar, se decidir 5 anos depois, cidadão!
  • Garanta uma ferramenta de trabalho campeã. Você depende dela e ela não pode te deixar na mão, pelo menos não o tempo todo. Faça um agrado a você, seus clientes precisam ver que você cuida das suas ferramentas como cuidará deles.
  • Como está sua imagem pessoal? Ela também é uma ferramenta, estamos, como autônomos, em permanente estado de avaliação. Cuide de você, esta é a principal garantia que você tem. Isso inclui seus dentes, seu cheiro, seu cabelo, sua roupa, seu cartão de visitas, seu site, seu carro, sua mobilidade sem carro, seu escritório, o coworking que você leva seu cliente, como se diverte, o que você fala nas redes, o vocabulário que usa, o decoro do ambiente que observa, se transmite arrogância…
  • Empodere o fato de que você não pode controlar tudo. Virão vitórias e muitas derrotas. Baixe suas expectativas e se jogue, porque ser o seu próprio patrão joga dupla responsabilidade nas suas costas. Você será o protagonista e o júri, ao mesmo tempo.

Muita coisa? Pois é. Isso funciona também pra quem está empregado, não se iluda. No mundo real é isso aí. De fato, ser múltiplo é o que o mercado diz que exige, mas há limites. Voltando ao item #1, somente com autoconhecimento e errando bastante você terá experiência pra errar cada vez menos.

E quando estiver confortável, nada como a vida pra mudar tudo e te educar que a jornada é mais importante que a chegada. Bora trabalhar e cobrar dos outros somente o que a gente mesmo pratica.

Se você chegou até aqui, obrigado. E se tiver algo a dizer, vou adorar!