A cidade de Lázaro era disputada metro a metro, rua de terra a rua de terra há várias décadas. Até mesmo na zona você tinha um lado da rua que privilegiava uma das duas famílias, Angelos e do outro, a segunda família, a DeLuca.

Poucos eram os corajosos a tentar se aproveitar dos dois lados, você tinha que escolher: ou aceitava o que os Angelos queriam ou era capanga dos DeLuca. Se traísse um dos dois, era certo que não trairia mais ninguém.

Assim também se resolviam as desfeitas de um representante para o outro. Até mesmo no concurso de melhor bolo da matriz você tinha matronas que, mais que não se dar, não podiam nem cruzar o caminho uma da outra sem que acontecessem puxões de cabelo e tapas na cara.

O interessante é que a cidade tinha duas matrizes. E dois monsenhores. Foi a única forma de apaziguar a onda de atentados às duas enormes igrejas que começaram inúmeras vezes a serem construídas, foram queimadas, pixadas, roubadas, santos quebrados, cocô no altar, pedreiro sequestrado, tudo que você imaginar. Um fato acontecia, em seguida o troco.

Cada família tinha dezenas de representantes vivos, entre patriarcas, filhos valentes, netos matreiros, esposas voluntariosas, crianças que começaram inúmeras pelejas e muitas que terminaram em outras dezenas incontáveis de parentes mortos.

Ah! Cada um com seus mortos no seu devido cemitério, localizados precisamente nos extremos leste-oeste do município. Cada cemitério mais enfeitado e homenageado que o outro. De onde os cortejos saíam? Claro que das portas do cemitério contrário!

Todos sabem na região que os coroneis que começaram a briga original, 6 gerações atrás, ao tentar habitar as terras férteis daquela região serrana se desentenderam, quase se mataram e dali pra frente, nunca mais houve conciliação.

Pois bem. Eis que os 2 maiores patronos resolvem correr a cerca de suas propriedades, que, claro, circundam e limitam o pequeno vilarejo de 813 pessoas em fazendas que continham forças igualmente competitivas de trabalho para superar a produção de leite do vizinho de 215 caboclos exatos, em dois lados. O mesmo número de tratores. De irrigadores, de hortas. De galinheiros.

E uma eterna briga no cartório da metrópole regional por 17 alqueires que as duas famílias há décadas disputavam em litígio pleiteando que eram seus, sendo a exata diferença de tamanho entre as propriedades.

Desta vez os velhos foram teimosos, ambos na casa dos 70, em ir sozinhos, a cavalo. Quis as ironias da vida que eles se encontrassem na colina mais ao norte das duas propriedades, às duas pras duas da tarde, em ponto.

Vilson deLuca avistou uma cabeleira branca ao longe e reconheceu imediatamente pelo cavalo branco. Wilson Angelo não teve dúvidas de que aquela careca rosa reluzindo em cima de um corcel negro era o velho idiota do lado de lá…

As propriedades eram tão grandes que ali não tinham cerca, mas cada um sabia que do lado leste do riozinho nenhum DeLuca pisava e do oeste nenhum Angelo. Mas Wilson viu um absurdo jogado no riacho.

_ Velho excomungado! Vai jogar lixo nessa várzea tosca de vocês!

E chutou uma garrafa que estava semi-descoberta, em um reflexo difícil de ignorar. A garrafa cristalina, obviamente de pinga, fechada por um sabugo voou e foi girando, certeira, na canela de Vilson deLuca.

Depois de xingar 3 gerações, o velho Vilson recuperou-se, enfureceu-se ainda mais com tanta risada do velho rival e acertou um petardo na garrafa digno da ponteira de aço, ao estilo Éder Aleixo.

Surpreendendo os dois que já se preparavam para chegar às vias de fato com as próprias mãos pois dessa vez esqueceram seus trabucos, a garrafa caiu de pé! De pé em uma pedra arredondada perfeitamente pela força da água do corgo. Do seixo bege os dois viram o sabugo pular como uma rolha de champagne e, raridade, se calaram completamente.

Surgiu em um efeito magistral colorido um armário de ébano, uma roupa típica dos fariseus exceto pelo peito liso nu e gigantesco. E mais: uma perna parou numa margem, a outra noutra. Era uma manobra digna do Blade, caçador de vampiros.

O cabrunco olhou para Vilson, olhou para Wilson. Nada. Olhavam pra ver se o outro ainda estava lá, por trás daquele gigante.

O cabrunco continuou olhando.

_ Não vão perguntar quem eu sou, suas múmias?

Nada.

Soltou um suspiro.

_ Tá bom. Eu sou o Gênio Cabrunco, mistura de Saci com Zumbi… – nada de reação –  Lázaro Ramos com Tony Tornado. – nada.

_ Tony Tornado, seus cáspitas! Não?

Novo suspiro.

_ Já desci Bahia, subi Floresta, fiz camelô virar apresentador. – os velhos “Aí sim!” Riram, juntos e o cabrunco enseriou.

_ Calaboca, porra! Fiz filho de lavrador deputado, time derrotado ganhar título com pé e piloto morrer no auge. Me faz um pedido que te concedo. Mas só um. O que você quiser eu realizo, ma não faz pedido ruim. Porque vai se realizar.

Nada. Até que Wilson quebrou o gelo:

_ Quem, eu?

_ Você o que sua lesma? – já respondeu Vilson.

_ É pra eu fazer um pedido, seu gênio?

O cabrunco ia responder, mas…

_ Opaaaaaaa, peraí! Ele olhou pra nós dois. Se você vai pedir eu também vou.

E recomeçaram a rinha de sempre, cada um do seu lado da pequena corredeira de água. E ia crescendo, as vozes subindo.

_ Caaaaaaaaaaaaaalaboca! – interrompeu o gênio – cara, vou bater em um por um.

_ Ah, mas… – e recomeçou a ladainha.

_ Caaaaaaaaaaaaalaboca! Eu quero saber, um de cada vez, pra quem vou dar o desejo e por que eu faria isso. Falou o cabrunco apontando para Vilson.

E o velho discorreu uma história de 4 gerações de crueldades da família Angelo, mortes matadas, truques sujos que mostrava que eles, os DeLuca, deveriam ter os desejos atendidos, finalizando nos 17 alqueires reconhecidamente seus.

Wilson Angelo discorreu como um mestre nos fatos conhecidos de bruxaria, piriguetagem das DeLuca, a sequência de jagunços contratados pela família que ceifaram vidas acabando em um crime de invasão para conseguir a vantagem de território.

_ Essa terra é importante pros dois, hein? – o cabrunco estalou os dedos e eles se materializaram bem no meio das fazendas, bem próximo a uma das praças mais movimentadas da cidade, mas a poucos metros de altura e os 17 alqueires era um colossal brejo. Os velhos foram mergulhados em um lamaçal marrom raso.

Cada um falou mais palavrão que o velho do saco, palavrinhas peludas que fariam corar aquele tradicional tiozão com a camisa do time surrada com o radinho de pilha no ouvido que se levanta no campo e ensina dúzias de palavrões novos, parecendo ser sobre o juiz, a quem está perto. E então…

_ Seu cabrunco, você vai ter que escolher a melhor família.

_ Concordo. A melhor deve ser escolhida e ganhar de uma vez por todas essa briga dos nossos vô.

_ Ma vocês são uns mentecaptos mesmos né… Então chegou aqui de um lado um Angelo de outro um DeLuca?

O cabrunco, que, diferente dos velhos, reapareceu de forma épica sequinho de tudo sobre uma tora, desceu e andou, pisando sem querer na mão de um e na barba do outro velho atolado.

_ A palavra angelo vem do grego, seus idiotas… e significa mensageiro. Luca é Lucas, o evangelista, palavra que nada mais é que a contração de eu… Repete, caralho.

_ Eeeeu.

_ Que significa bom e angelion

_ angeeelionnnn…

_ Mensageiro… O bom mensageiro. Os dois vieram lá dos cafundós das terras por onde andou Jesus e eram… Irmãos! Suas bestas quadradas, vocês tem até o mesmo nome!

Protestos dos velhos. Vários transeuntes já haviam parado pra ouvir e se espantaram.

_ Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhh. Então vamos resolver esse perrengue assim…

O cabrunco, em frente a pequena multidão que se aproximara, separando-se em DeLucas de um lado, Angelos de outro e um bando no meio, todos estupefatos com a revelação feita em alto e bom som, estalou os dedos e os dois velhos se tornaram, cada, bebês sobre o monte de roupas de cada velho.

A multidão exclamou um “Aaaaaaaaaaah” de arrupio. E o bebê gêmeo Angelo deLuca da esquerda riu, jogou lama no rostinho do outro, que chorou.