Seu José estava pedalando sua Barra Forte por aquela estrada morrosa do interior mineiro. Eis que decide passar por uma trilha mais longa mas por um motivo sentimental. Em poucos Km, avista de um pequeno mirante o Rio Doce agora barroso e inerte. Até mesmo os cantos de passarinho estão diminuídos. A morte fica famosa na região. E afasta os bichos bonitos.

O trabalhador humilde segue seu caminho, suspirando, quando topa com a bicicleta em algo que o derruba. Rala o joelho. Conjura 3 santos. Pensa na falação da patroa pra arrumar o rasgo da calça. Mas vê algo brilhante onde tomou o capote.

Se aproxima e vê algo cristalino semi-desenterrado. Pára. Desconfia.

Arrisca, pára. Vai. Termina de desenterrar um belo litro de pinga da branquinha. Espana a terra grudada. Esfrega a mão e acha interessante o brilho singela da danada.

Agora a garrafa parecia nova. Até o sabugo de rolha ficou limpo!

“Um pouco pra jogar no ralado”, pensa, como desculpa e puxa o sabugo.

Com uma vibração pujante e no susto o José me solta a garrafa no ar, que cai de pé, sem quebrar, firme. Ao começar a ver o semblante de um negão enorme se formar como se fosse fumaça o velho corre pra detrás de uma árvore e começa um pai nosso bem atropelado.

_ José.

Que voz de trovão.

A reza intensifica. “É macumba! É macumba!”

_ Não mete meus irmãos do candomblé nessa, José. Eu sou o Gênio Cabrunco, mistura de Saci com Zumbi, Lázaro Ramos com Tony Tornado. Já desci Bahia, subi Floresta, fiz camelô virar apresentador, filho de dotô deputado, time derrotado ganhar título com pé e piloto morrer no auge. Me faz um pedido que te concedo. Mas só um. O que você quiser eu realizo, ma não faz pedido ruim. Porque vai se realizar.

José não mexeu. Não acreditou. Não levantou. Tremeu. Até um mijim saiu sem querer.

_ Sai daí, José. Quero saber seu desejo.

_ É… sério isso?

_ Claro que é homem.

_ O sisminino que não me passa aqui agora pra ver, acho que fiquei doido.

_ José, olha aqui.

O Cabrunco toca o braço do moço num choque leve. Mãos na cabeça, cócoras, mas um teco de mijim saído.

O Cabrunco senta. Espera. Zé começa a ir em direção a bicicleta.

_ José, a gente pode brincar de pega pega o dia inteiro. É o pedido ou 24 horas te atazanando.

O danado apareceu bem na frente, é mudar os olhos de direção pro Gênio mudar junto.

_ Ok, ou você me faz um pedido ou eu vou lá na casa de Sa’Ana falar que você encontrou comigo e que não quis pedir nada. Não preciso ser gênio pra saber que a falazada vai lhe durar bem uns 23 anos.

José suspira. Pára. Olha de cima embaixo, esconde as manchas úmidas nas calças com vergonha.

_ Tá bão.

Levanta, estufa o peito. Esconde de novo. Suspira.

_ Té que enfim. To esperando.

Olha ao redor, mira na direção que veio, pensa. Pensa. Mira na direção que ia, pensa. Pensa. Ranca um matinho da beira da estrada. Mastiga.

_ Tá bom, seu Gênio. Viu o Rio Doce lá pra trás?

O Gênio demorou alguns instantes pra teletransportar, sobrevoar, consultar o Google e voltar.

_ Desgraça de gente, hein? Vi sim, que tem?

_ Pois é. Eu quero que você limpa e devolve a vida pro rio e limpa dessa terra a tal desgraça de gente que fez isso com ele.

O Cabrunco olha, pensa. Pensa. Arranca um matinho. Mastiga. Olha pra outra direção na estrada. Olha pro José e suspira.

_ Tá bom.

E com um tapinha de ombro, José pisca e se vê no mesmo lugar. A estrada sumiu. A natureza está muito exuberante. É tanto barulho de bicho que dá medo. Ele ouve um barulho de água ensurdecedor. E começa a seguir. Mas as árvores estão muito maiores. Ele vê um bando de araras enormes e toma mais um susto. Mas não consegue não ir até a direção do som da água.

E então vê de um lugar que parece o mirante anterior: o Rio Doce está caudaloso e umas 5 vezes mais cheio do que ele viu em enchente. O vale todo onde podia andar no leito do rio em alguns lugares estava submerso. Água a toda velocidade e a vida ao redor era de encantar. Foi o sorriso mais contente que o homem soltou na vida.

Ele não sabia, mas o Cabrunco o mandou para um tempo em que ele só encontraria restos de concreto já engalfinhados por natureza. Ficou sozinho num tempo em que a Humanidade já havia sido varrida há muito da face da Terra.