Luizinho há muito era chamado de Correria por todo mundo do bairro. Desde os 8 anos usava sua agilidade pra levar recados, encomendas, buscar no ponto, entregar marmita e tudo mais que você imaginar.

O tráfico da vila, obviamente, estava já de olho e hoje, aos 13, já foi abordado várias vezes para fazer entregas especiais que lhe renderiam uma grana muito boa.

Só pode recusar porque sua mãe já ajudara quase toda a favela de todas as formas possíveis e impossíveis, até resolvendo conflitos por boca de fumo. Era uma dessas matronas respeitadas e atuantes.

Uma das coisas que a Dona Luiza ensinou bem aos filhos foi a não mexer no que não é seu. E assim Correria ignorou uma bela garrafa de pinga, branquinha e reluzente, que apareceu na sua frente, em uma das inúmeras escadas da vila. Teve que pular pra não tropeçar.

A encomenda não podia esperar, assim como receber os 3 reais pelo corre.

No dia seguinte, ao deixar a avó de um amigo bem acomodada no banco do ônibus, correu de volta à “central”, o portão de sua casa, e ali viu a danada da garrafa de novo, em cima do muro, bem ao lado do portão.

_ Tem alguém brincando comigo.

Pegou a garrafa e colocou na ponta oposta do muro. Quando voltou ao portão..

_ Eita, capeta!!!

A garrafa estava no local anterior! Olhou para os lados, um silêncio inédito pra tarde. Ninguém passando nem de longe.

A garrafa tremeu.

O muleque pulou.

A garrafa pulou.

_ Isso é pegadinha do Sílvio!

Segurou a garrafa, parecia que algo queria sair da rolha de sabugo. Bem… Abriu. A garrafa saltou e caiu de pé na sua frente. Eis que vem aquele paredão marrom.

Correria grudou no portão por dentro, pronto pra fechar.

_ Ninguém tá te trollando, Correria, espera. Explico. Eu sou o Gênio Cabrunco, mistura de Saci com Zumbi, Lázaro Ramos com Tony Tornado. Já desci Bahia, subi Floresta, fiz camelô virar apresentador, filho de lavrador deputado, time derrotado ganhar título com pé e piloto morrer no auge. Me faz um pedido que te concedo. Mas só um. O que você quiser eu realizo, ma não faz pedido ruim. Porque vai se realizar.

_ Mas que magia é essa?

_ …

_ É isso, o satanás é preto também?

_ …

_ Cadê as câmeras? Não saio daqui nem fu.

O Cabrunco ficou calado pela primeira vez.

Tá lá no barracão o gênio tomando um café e o menino com os olhos arregalados, custando a acreditar.

_ Seu Gênio, coisa boa não acontece pra gente não. É só marretada.

_ Correria, já tô sem paciência. Pede logo esse desejo, eu realizo ou não, como você acha e te deixo continuar as correrias. O que você gostaria muito?

O muleque pensa, vai no portão, olha ao redor, não entende a calmaria inédita, vê onde estouraram foguete lá perto da boca e volta.

_ Tá bom, seu Gênio.

_ Não sou seu, zé.

_ …

_ Cabrunco, eu quero então um Brasil diferente desse. Um Brasil onde todo mundo é igual mesmo, ou seja, estuda todo mundo em escola boa, com telhado, todo mundo pode fazer faculdade, escolher o que quer fazer pra ganhar dinheiro. Ah, todo mundo tem que ter a mesma quantidade de dinheiro. Pra poder viajar, ir no mar toda mão, comprar presente pra mãe, levar a namorada pra comer algo bacana, conhecer lugar bonito. Quero um Brasil que tenha ônibus bom e com ar o tempo todo, menos carros. Isso! Que todo mundo possa ter o carro que quiser, mas com menos espaço pra eles. Mais espaço pra gente. Um Brasil que as pessoas não olhem pra gente que é pobre e preto e finjam que não viu. Ou que não fiquem com medo. Quero que a minha mãe possa ter uma casa bonita! A que ela quiser, onde a gente escolher! Queria que meu pai não tivesse que ter roubado pra gente comer. Não tivesse se acabado com a bebida. Esse Brasil precisa ter alguém pra cuidar de quem bebe e usa droga, mas que tenha jeito do camarada trabalhar e ganhar seu dinheiro também! Lá não pode ter esse tanto de muro também e claro, muita natureza bonita que a gente possa curtir.

A lista era grande. Correria empolgou. O Cabrunco pela primeira vez ficou boquiaberto. Aquele seria um dos seus trabalhos mais difíceis e depois de 2 horas falando de um Brasil “melhor que Estados Unidos”, ele terminou.

_ Essa eu quero ver, seu Gênio!

_ Não sou seu e vou fazer o que você quer.

O Cabrunco levantou, estalou a coluna, os dedos e concentrou. As paredes começaram a tremer levemente, a coisa era séria. Por 2 minutos o Correria se encantou com os raios passando ao redor do Gênio em efeitos que ele só tinha visto em joguinho na lan house.

_ Pronto, moleque. Tem um mapa mundi aí?

Correria correu e pegou seu livro surrado de Geografia do colégio, de terceira ou quarta mão. Abriu em uma página que continha um mapa do mundo.

_ Tá vendo aqui esse mundão de água? É o oceano Atlântico. Criei esse Brasil aí que você queria. Tem onde morar, natureza, tudo prontinho pra escolher. Todo mundo tem uma conta e recebe R$ 4.000 todo mês.

_ Todo mundo?

_ Todo mundo.

_ Todo mundo é rico aí então?

_ Todo mundo. É só mudar.

_ Só mudar?

Correria pensou. Parou.

_ Ah seu Gênio. Acho que não vai funcionar.

_ Hein??

_ Não adianta. Brasileiro não quer mudar.