“Garimpeiros seguem território indígena adentro. Desmatamento, poluição e agora a ameaça do coronavírus chega cada vez mais perto de aldeia”.

O ancião da tribo olha pra floresta. Seu olhar repete a ação do pai do seu pai do seu pai. Dia do índio. Que ironia do branco. Praticamente 520 anos da invasão e o plano deles de matar os índios vai dando certo.

Quem fica morre. Quem vai embora vira branco.

O pajé se lembrou dos primeiros habitantes. Índios do céu que viam essa terra linda e não aguentaram. Emendaram muitos cipós do céu, desceram e pisaram na terra. Quando foram voltar ao céu, o cipó rompido fez com que ficassem presos aqui, na irmã terra, linda, maravilhosa, generosa. Se soubessem o que ia acontecer teriam descido mesmo assim?

Agora, índio daria a vida sem pestanejar pela floresta. O que estão fazendo com ela é demais. Uma única máquina pode abrir clareiras muitas vezes maiores que a aldeia toda. Tudo pra vender o que tá no chão. Como há 520 anos. É fato.

Os ribeirões estão virando areia e lama ao sul. Esse negócio de viver todo mundo amontoado no cimento não vai dar certo.

A natureza vai cobrar seu preço, ela é maior que a gente.

Se lembrou dos 6 irmãos que se foram. 1 assassinado, outros doentes, outros morreram cedo. Só sobrou ele. Ao menos o pai, do pai, do pai e assim adiante ainda viviam nele, enxergavam pelos olhos dele, pra ver como a terra mudou. E mudou pra pior.

Como o branco acha que está vencendo. Irmãos de outras tribos caindo na mesma corrupção. Outras tantas que nem existem mais.

O pajé já reconhecera obras de antigos rivais ou tribos amigas com quem faziam casamentos. Com quem mostravam suas danças. Cada uma mais bonita que a outra. E as músicas…

De milhões a milhares. É um fato. Diferente do extermínio dos espanhois mais ao norte, a morte das tribos da parte sul, foi lenta.

Dia do índio? Nada a comemorar durante essa epidemia.

O branco ia vencendo a guerra, lentamente…

No dia 77 o pajé avistou de longe algo brilhante ao pé de uma aroeira mais velha que ele, dos tempos dos ancestrais.

Entre as raízes havia uma garrafa de líquido branquinho com um sabugo enfiado. Curioso, puxa o sabugo e a garrafa pula da sua mão.

Rodopia no ar e o pajé grita “Anhangá!”, ela cai, rodopia no chão e pára de pé, soltando uma fumaça azulada. Um preto enorme, muito forte começa a surgir da fumaça.

_ Tupã!

_ Nem Anhangá, nem Tupã, meu pajé. Eu sou o Gênio Cabrunco, mistura de Saci com Zumbi, Lázaro Ramos com Tony Tornado. Já desci Bahia, subi Floresta, fiz camelô virar apresentador, filho de dotô deputado, time derrotado ganhar título com pé e piloto morrer no auge. Me faz um pedido que te concedo. Mas só um. O que você quiser eu realizo, ma não faz pedido ruim. Porque vai se realizar.

 O silêncio que se fez só não foi sepulcral porque a floresta é viva e tem sons esplêndidos. O ancião seguiu olhando.

_ Pode falar meu velho. Eu sei que você me entende. Sou um Gênio. Vim lá do outro lado do mundo mas me criei meio mineiro, meio carioca se é que é possível.

Silêncio do velho que pensava o que fizera de ofensa aos deuses. Já não bastava esse governo.

_ Não vou embora sem lhe conceder o desejo meu vô.

_ Que falta de respeito.

_ Também sou das antigas meu pajé. Posso ter conhecido seu tataravô.

_ Que história é essa de desejo? 

_ Você pode pedir qualquer coisa mesmo. Eu faço.

Silêncio do alto da sabedoria do pajé.

As aves faziam um som que competia com o dos micos.

_ Se o seu Gênio esperar 2 dias e 2 noites eu faço.

Lá foi o cabrunco atrás do pajé pra aldeia.

_ Você se entrar aqui vai causar muito alarde. Pode voltar pra garrafa.

Voltou. E o pajé enrolou numa folha de bananeira que achou. Tinha restos de peixe nela. O pajé não viu mas o Gênio ficou enfezado lá dentro. E o velho guardou a garrafa em um canto seguro.

Por 2 dias e 1 noite o pajé e um grupo de índios adultos se reuniu e em longa discussão cada um colocou motivos, desejos, vontades, discutiram, brigaram, alguns se estapearam.

Logo que o sol começou a se por, o pajé buscou a garrafa e abriu no meio dos conterrâneos.

Todos fizeram o mesmo som silencioso de espanto ao ver aquele deus de ébano enfumaçado abaixo do tanquinho.

_ Até que enfim meu pajé, vamos lá, seu desejo.

_ Espera! Ainda não é de noite. Tem que esperar.

O silêncio de novo. O cabrunco começava a se irritar com ele. Só a madeira da fogueira alta estalando habitou o ambiente.

Entrou mais uma índia, talvez a mais jovem, arregalou muito os olhos pro nosso Tony Tornado encantado e disse algo ao pajé.

_ Pronto, já é noite. Vou fazer o pedido.

O alívio do Gênio foi gigante como seu bíceps.

_ Por 2 dias e 2 noites nós nos reunimos pra fazer um pedido ao Gênio. Pode ser qualquer pedido que ele vai realizar.

Parou de falar e começou a gesticular pro cabrunco se aproximar. Era uma figura, o pajé fazendo o gesto, até o Gênio entender e aceitar ir, digo, flutuar, até lá.

_ Meu Nego, vem aqui que tenho medo de algum branco ouvir e isso dar errado. 

Falou ao ouvido do gênio. Que parou, ao fim, suspirou.

_ Ok.

Estalou o dedo.

_ Pronto.

Os índios se olharam. Nada mudou. O pajé foi perguntar porque nada aconteceu. Saiu um dialeto primo do tupi típico daquela região. Nenhum índio sabia falar português, todos riram, gritaram e comemoraram.

500 anos atrás, as caravelas, há 2000km da costa do Brasil foram desviadas por uma tempestade e acharam o caminho das Índias.

18 anos depois, nova leva de 5 caravelas foram desoladas por uma tormenta nada característica. 1 delas apenas teve sobreviventes que fundaram uma sociedade bem alternativa numa ilha do Atlântico Sul.

11 anos depois do último evento nova tormenta desviou galés espanholas para a tal ilha. Que festa!

8 anos depois da galé uma esquadra se desviou e enfim encontrou o destino da galé.

Foi um ciclo de tempestades bem loucas que geraram a lenda do Triângulo das Bermudas do Sul.

100 anos depois dos 18 anos depois da primeira leva de portugueses, holandeses, espanhois, genoveses, turcos e até egípcios, a ilha fora enfim assolada por representantes espanhóis da inquisição da Santa Igreja.

As Bermudas eram míticas. Impossíveis de se dominar. Havia um grande hiato. No outro sentido do globo, havia um país que finalizava em uma cordilheira espetacular, altíssima, que todo homem que tentava passar, morria. Era o cone do Atlântico Sul que se emendava à América.

Livros de viagens e mais livros de viagens fantásticas foram escritas pela imensa interrogação do que havia a leste das cordilheiras. Nunca um homem pode saber. El Dorado? Havia Sul na América?

Em 2032 uma comissão de cientistas da ONU em um submarino chega a um corredor de embarcações naufragadas que se estendia por mais de 7000 km no fundo do Atlântico. Consegue enfim superar e ficarem vivos pra contar.

Foi transmitido ao vivo para todo os continentes.

Chegaram a uma civilização costeira de pele queimada que os recebeu tão bem quanto eles ficaram felizes em conhecer uma nova terra com donos de poucas roupas enfeitadas. O capitão sueco do submarino nunca suspeitaria que falava com novo familiar fruto de casamento da incursão pacífica pelo litoral da tribo do pajé. Quem sabe o velho ainda estava por ali pra contar a lenda de um Super Saci de duas pernas?