Estar em casa durante a Covid-19 foi realidade pra maioria das pessoas no planeta. Isso foi um feito inédito, talvez a única vez que o mundo tenha parado ao mesmo tempo, mostrando a dimensão real que a globalização tem.

Estar vulneráveis a um fator externo único, ao mesmo tempo, praticamente. E pra completar, haver uma massiva consciência disso, talvez tenha sido a primeira vez.

Diferente do uso das redes sociais para memes, enfim a Humanidade se depara com uma questão que a faz refletir, querendo ou não, com razão, sem razão, sem entender, como pôde.

Muitos pais, pela primeira vez, passaram mais de 1 mês em casa, mais de 90% do tempo com contato com os filhos e o parceiro. Pra quem passa por isso, fica claro o permanente estado de “estar à disposição”.

Quem faz home office já se preocupa em criar um ambiente e rotina de trabalho para que todos ao redor entendam que essa disponibilidade permanente não existe.

Para as crianças pequenas, no entanto, ver os pais em casa o tempo todo significa exatamente isso.

Estamos ouvindo relatos de como isso tem deixado os pais loucos.

Ensino à distância emergencial das escolas. A medonha, disputada, desequilibrada e conflituosa divisão de tarefas. O confinamento em espaços que, costumeiramente, na cidade, são pequenos. A invasão dos escritórios pelas crianças! Muitos vezes a inexistência deles, que são a sala ou a varanda.

Mesmo quem não tem filhos e já tinha um espaço de trabalho em casa já sendo usado, nesta Covid viu surgir novos demônios da vida profissional no séculos XXI.

Um dos maiores deles é o demônio da produtividade.

Nestes modos de trabalhar do século XXI em que se libertou de muitas amarras, mas também, se adquiriu possibilidades de controle e de se estar 24/7 no trabalho, a produtividade é horizonte, condição sine qua non para qualquer indivíduo se chamar de profissional.

Existe de fato essa produtividade em alto nível? É real? Sim, claro.

Muitos conseguimos, frequentemente, desencadear ações, cumprir tarefas e concluir projetos sozinhos ou em equipe ou que, juntas, formam uma ação coletiva: ser extremamente produtivos.

O sars-covid2, entretanto, veio nos fazer constatar algo que deveria ser óbvio.

O nível de produtividade considerado ideal atualmente é simplesmente desumano, um demônio, pois não conseguimos nos manter nele o tempo todo.

Sugiro um vídeo do TED bem bacana antes de discutir pontos de dor da covid:

TED – O segredo alegre de um trabalho melhor

Quem é que determina esse tal ponto mediano de produtividade?

Nós somos seres que nos acostumamos. Se temos uma rotina e mudamos, criamos outra pra substituir. E se não conseguimos nem ao menos o mínimo controle para concluir a maior parte do que planejamos?

Como alguns, mesmo com todo tipo de obstáculos, conseguem cumprir todas as tarefas programadas, se sentir úteis e relaxar ao fim do dia?

Não conseguir dormir satisfeito vai minando cada um de nós até que se instale um quadro de alguma nova coqueluche: ansiedade, depressão ou estafa. Isso já ocorria antes. Agora, na pandemia…

Como vimos no vídeo, se salvam aqueles que conseguem lembrar dos sucessos obtidos com mais frequência. Das conquistas. Mas quero falar aqui – especialmente – das que estão mais aderentes aos propósitos pessoais.

Aliás, aqui entramos numa esfera que sou especialista: Proposta de Valor.

Aproveitemos as horas ganhas fora do trânsito para pensar no que damos valor de verdade. Pessoalmente, um enorme valor que já conquistei com a parceira – ainda que por apenas 2 anos – é morar perto do mar.

Agora, como lembrar do que realmente importa se no trabalho nos cobram resultados exatos e na mídia não vemos os tais pontos medianos, mas os “fora da curva”, sempre com provas contundentes de sucesso, exaltação dos mesmos, que se transformam em série de cursos e palestras como se a produtividade pudesse ser um estado absoluto. Basta aprender.

Os casos de sucesso, empreendedores, ricos, guardam perfis muitíssimo parecidos. Temos até uma revista para falar dos 500 mais bem-sucedidos.

Não vou entrar no mérito das causas, mas exaltamos, na verdade, os pontos fora da curva. Não podemos falhar?

Para escrever 20 crônicas da Covid-19 estejam certos de que houveram dias improdutivos, entre decisões de seguir ou abandonar projetos, em que se vai dormir frustrado e ansioso.

Como vimos no vídeo, na pandemia mudamos completamente nossos panoramas diários. Tudo que estávamos acostumados a fazer, a forma como nos adaptamos para encontrar a felicidade em ser útil, virou máquina de lavar, pia de louça suja, faxina e pajear alguém.

Como ter otimismo com a mídia transmitindo massivamente – como o próprio vírus é transmitido – cada dezena de contaminação, medo em todas as parte, discórdia? O vídeo é enfático: a felicidade, a integração, depende de forma contundente do nosso nível de otimismo.

Que nos empossemos da ideia de que trabalhar mais não implica em felicidade. Aliás, nem quer dizer que se foi produtivo. Há muitas maneiras de ser improdutivo e terminar tarefas.

Experimente entregar um balde com água, sabão e estopa para alguém que já lavou um carro mais de uma vez e para alguém que nunca lavou.

Que usemos a criatividade para bolar formas bem crueis para matar o monstro da produtividade. Que sejam instituídos dias de lives para relaxar.

Aprendi a discotecar nessa quarentena. Qualquer pessoa no mundo pode ouvir a sua playlist, feita na hora, de acordo com a vibe do bate-papo.

Também fiz Yoga a primeira vez. Tai Chi Chuan. Voltei a tocar minha guitarra. Arrumei várias bagunças que a correria não me permitia. Lutei com a parceira contra as hipocrisias do cotidiano. Aceitei não lutar contra outras tantas coisas. Foi como tirar o lixo de casa. Sensação de limpeza.

E você, o que fez de novo? Conta pra mim.